As influências da Memória Afro na trajetória profissional de um guia de turismo

Você já sentiu que uma decisão profissional poderia mudar a forma como você enxerga a sua própria identidade e a sua interação na sociedade a qual você faz parte? Pois é… comigo foi exatamente assim. E é essa experiência que gostaria de compartilhar com vocês a partir de agora.

Às vezes, a vida nos chama antes mesmo de entendermos que fomos chamados.
E quando olho para trás, percebo que minha trajetória no Afroturismo começou muito antes de eu saber o nome desse caminho.

Em maio de 2014, quando recebi a minha credencial do Ministério do Turismo, eu ainda era outro. Trazia comigo as incertezas de uma transição de carreira, aquela sensação de estar começando do zero em um universo estranho, vasto, desconhecido. Tudo era novo. Tudo precisava ser explorado. Cada segmento do turismo parecia uma porta possível — e eu precisava descobrir qual delas conversava com a minha essência.

Mas havia algo que eu carregava desde a escola, mesmo sem entender ao certo: a paixão pelas histórias que moldam o mundo e pelos mapas que nos ensinam a caminhar. História e Geografia sempre me acompanharam, silenciosas, como quem espera o momento certo de se revelar. Eu admirava os monumentos, as construções, as memórias de outras épocas… mesmo sem saber o nome daquilo que despertavam em mim.

Com o tempo, descobri que não era simples admiração: era busca.
E que memória — como aprendi com Le Goff — não é só lembrança: é poder, é identidade, é raiz.

Sou nascido e criado na cidade do Rio de Janeiro, um território onde cada esquina conta uma história; onde pedras, igrejas e ruínas ainda pulsam com as marcas das três fases que formaram a História do Brasil. Em silêncio, esse território já me chamava. Eu só não entendia — ainda — o que ele queria me contar.

Quando o Turismo encontra a História

A primeira oportunidade profissional surgiu na Copa do Mundo de 2014.
Trabalhei em uma agência dedicada a turistas estrangeiros, com foco em cultura e história. Os donos da agência eram historiadores, e tal fato abriu uma janela que eu desconhecia. Aos poucos, percebi que não bastava ser guia: eu queria ser ponte. Queria fazer do turismo uma forma de conhecimento.

E decidi: meu caminho seria o Turismo Histórico-Cultural, uma das especializações existentes no Turismo, segmento ao qual sigo me desenvolvendo até hoje.

Desde então, passei a investir em cursos, oficinas e palestras. Em 2016, mergulhei na Pós-graduação em História do Brasil. Quando concluí, em 2018, surgiram convites para acompanhar turmas em atividades de campo. E ali, no contato com os alunos, percebi algo precioso: o estudo estruturado não só enriquecia meu trabalho — transformava minha forma de ver o mundo.

O chamado de África

Mas foi depois dessa pós-graduação que algo muito mais profundo começou a ecoar: a Diáspora Africana, que se apresentou não como um tema, mas como um espelho.

Eu, que sempre me identifiquei como pardo, passei a compreender — do ponto de vista acadêmico, emocional e social — que sou afrodescendente. E tudo aquilo que eu aprendera sobre escravidão, até então, era raso, superficial, incompleto. Como poderia não ser? Nossa formação escolar raramente nos permite enxergar a África com dignidade, profundidade e centralidade histórica.

Quanto mais eu estudava, mais perguntas surgiam.
E essas perguntas, longe de me afastar, me empurravam para mais perto: perto de mim mesmo, da minha história, da história que ainda não me haviam contado.

Foi então que decidi buscar, intencionalmente, espaços de formação sobre África.

Instituto Pretos Novos: quando a identidade encontra o território

Essa busca me levou, em 2014, ao Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos — o único museu memorial afrodiaspórico do Brasil, no coração da Pequena África. Um território marcado por dor, resistência e ancestralidade, onde milhares de africanos escravizados foram enterrados anonimamente.

Ao cruzar as portas do IPN, eu não sabia, mas algo em mim acabaria de mudar.

Ali, participei de cursos que se tornaram divisores de água:

  • História da Zona Portuária
  • Cemitério dos Pretos Novos
  • Caminhos da Escravidão (hoje, o Circuito de Herança Africana)

O IPN não era apenas um espaço de estudo. Era um lugar onde história, território e memória se encontravam. Onde teoria e prática caminhavam juntas. Onde identidade deixava de ser conceito e se tornava corpo.

Eu finalmente havia me encontrado profissionalmente. 

O Circuito de Herança Africana: quando conhecimento vira compromisso

Depois da pandemia, em 2022, o Instituto abriu a primeira turma de Capacitação para Guias de Turismo. Ali fui treinado para realizar o Circuito de Herança Africana com rigor, sensibilidade e respeito às narrativas ancestrais.

Ao final do curso, os participantes recebiam o convite para se tornarem guias-voluntários do instituto. Não hesitei. Como recusar a chance de unir propósito, ancestralidade e profissão?

O voluntariado no IPN me ensinou a escutar o público, a acolher emoções, a entender o peso de certas narrativas, a respeitar o silêncio, a reconhecer a força das memórias. Aprendi que o Afroturismo não é apenas turismo: é ferramenta de educação, cura, reparação, resistência e correção de rota.

E eu queria fazer parte disso.

A jornada que se aprofunda

Mas, como diz o ditado, “quanto mais se questiona, mais se quer saber”.

E foi esse desejo que me levou, em 2022, à Pós-graduação em História da África e da Diáspora Atlântica, especialização ministrada no IPN, em convênio com uma instituição de ensino de São Paulo.

Essa escolha não foi só acadêmica. Foi pessoal, ancestral, política e social.

Estudar África é reabrir caminhos apagados, é atribuir e reconstruir verdades ocidentais, é conferir o mérito a quem de direito, compreender o Brasil em profundidade e, sobretudo, fortalecer identidades que a história oficial tentou silenciar.

Por que conto esta história?

Porque a minha trajetória — entre teoria, território, ancestralidade e Afroturismo — é também a de muitos outros profissionais que lutam para valorizar a memória Afro-brasileira.

Conto esta história porque acredito no poder do Afroturismo como prática transformadora. Porque sei que educação e memória podem combater o racismo que insiste em atravessar nossa sociedade. Porque cada passo que dei — e continuo dando — ajuda a construir não apenas a minha identidade, mas a de todos que reconhecem África como raiz e futuro.


É isso que inspira e guia o meu trabalho.
É isso que compartilho e já compartilhei com mais de sete mil participantes que  recebi ao longo desses quase quatro anos de atuação na Pequena África, que buscam no Circuito de Herança Africana maneiras de se reencontrar com a sua própria ancestralidade, ou simpatizantes que se interessam pelo tema.  

Que essa caminhada inspire, provoque reflexões e acolhimento.
E que, juntos, sigamos reconstruindo memórias, fortalecendo pertencimentos e fazendo do Afroturismo, do Turismo de Memória, um caminho de transformação social, e que nos leve a uma convivência harmônica e respeitosa com nossas diferenças.